Pesquisa com 772 estudantes foi feita nas redes pública e particular, onde o problema é mais frequente.
Arquivo Tribuna: Daniel Barreto

Projeto mostra ser possível a integração entre jovens atendidos pela Apae e nas escolas da cidade
O comportamento agressivo entre jovens e crianças é um problema observado em todo o mundo. Ignorada ou não valorizada pelos alunos, a violência psicológica, conhecida como bullying, é, muitas vezes, considerada como natural. Segundo a dissertação de Mestrado da pesquisadora araraquarense Juliana Moretti de Oliveira, 51% dos alunos do Ensino Médio da rede particular, 28% da rede pública e 13% de escolas autárquicas (públicas que funcionam com recursos privados) de Araraquara disseram perceber a existência de colegas agressores ou intimidadores. Juliana ouviu 772 alunos do 1o ano.Quando perguntados se já sofreram algum tipo de intimidação por parte de colegas, 81% dos alunos de escolas particulares afirmam que sim, frente a 62% de respostas positivas nas públicas e 59% nas autárquicas.
IBGE
Um estudo publicado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) recentemente mostra que três em cada dez estudantes já foram vítimas de bullying na escola. Também nos dados do IBGE a prática é mais comum na rede privada do que na pública. Na pesquisa realizada pelo instituto, 35,9% dos alunos de escolas particulares se sentiram humilhados por provocações de colegas. Nas escolas públicas, o índice é de 29,5%. Os homens (32,6%), ainda de acordo com o IBGE, são alvos mais frequentes do que as mulheres (28,3%).
“Nas minhas pesquisas, percebi que tanto as vítimas quanto os agressores tinham falhas na socialização primária, que se refletem na secundária, que é quando a criança passa a ter contato com outras crianças, seja na rua ou em escolinhas”, afirma. “A criança tem a família como mediadora entre ela e a sociedade, é o primeiro espaço coletivo ao qual aprende a se referir. Padrões de comportamento, hábitos, usos, costumes, atitudes, linguagens são transmitidos no seio familiar”, ressalta Juliana.
Parceria combate a prática com esporte
Na rede municipal, há medidas de inclusão, como a educação física adaptada que reúne estudantes com crianças e adolescentes atendidos pela Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae).
A Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Waldemar Saffiotti realiza jogos, como vôlei adaptado, dama e dominó, entre seus alunos e estudantes da Apae. O objetivo, segundo a Secretaria Municipal de Educação, é incentivar o respeito à diversidade humana através de atitude de compreensão e cooperativismo. As atividades são ministradas por Rogério Camargo Varanda, professor de educação física, e consistem em jogos e brincadeiras para alunos com necessidades educacionais especiais. Estas adaptações possuem técnicas, métodos e formas de organização que podem ser aplicados ao aluno com deficiência. “Os alunos nesses momentos apresentam bastante lucidez, refletem sobre o respeito entre as pessoas e a importância da convivência”, comenta o professor.
Consequências podem ser graves
A vítima do bullying, muitas vezes, carrega o sofrimento causado pelas agressões para a vida adulta. Há registros de ocorrências de pessoas que eram vítimas e que, para acabar com seu sofrimento, cometeram homicídio seguido de suicídio. E, nem sempre, as vítimas desses homicídios eram seus agressores/intimidadores, chamados de autores de bullying.
Apesar de o ambiente escolar ser o local onde o bullying é mais percebido, o problema está presente em todos os lugares nos quais crianças e adolescentes se relacionam inclusive nas muitas páginas de relacionamento existentes na internet.
No final de 2007, o New York Times relatou um caso de cyberbullying. A adolescente Megan Meier, de 13 anos, acreditando nas falsas ofensas que eram feitas a ela continuamente através do site de comunicação My Space, matou-se.
Jovens relatam constrangimentos
A Tribuna conversou com dois jovens estudantes de escolas particulares que relatam o constrangimento a que eram submetidos e as consequências das brincadeiras e do preconceito. Os nomes dos entrevistados são fictícios.
Sofia conta que quando ingressou na 5a série era muito magra e passou sofrer com as brincadeiras. “As outras meninas já tinham o corpo formado ou em formação, os seios já começavam a crescer e o quadril estava mais largo e eu não tinha nada”, afirma. “Elas me chamavam de ‘Olívia Palito’, ‘vareta’, ‘cabo de vassoura’ e outras coisas. Era muito ruim, muito chato”, recorda-se.
A jovem revela que por conta das dificuldades de relacionamento com as meninas da mesma idade, teve que se ‘enturmar’ com os meninos da turma. “Eu me sentia excluída, não dava para me relacionar com as meninas sem brigar. Já com os meninos eu me dava bem”, ressalta.
Sofia também destaca que o bulliyng deixou-a rebelde. “Se você reage, se afeta, o pessoal percebe e só piora, as brincadeiras aumentam. Eu ficava revoltada e me rebelei.” A garota conta que deixou de ser uma “aluna certinha” e transformou-se em uma espécie de ‘bad girl’. Segundo ela, “passei a provocar as meninas, provocava as que tinham nariz grande, faltava às aulas, enfim, deixei de ser uma boa aluna”, conclui.
Gordinho
Ivan, também, aluno de escola particular, relata que era “gordinho” e sofria com a gozação dos garotos da escola. Tanto que, aos 15 anos, decidiu fazer regime para não ouvir mais piadinhas do tipo ‘vai sair rolando’, ‘bolinha’, ‘olha o gordo’ e outras do tipo.
Quando emagreceu e tornou-se “normal”, começou a trabalhar como modelo. As brincadeiras de mau gosto e o preconceito mudaram. “Aí, passaram a me chamar de gay”, lembra. Ivan afirma que chegaram a insinuar que ele estava saindo com homens para conseguir trabalhos. “Era o máximo, adorava desfilar, me sentia bem, consegui trabalhar com muito esforço, mas ouvia esse tipo de insinuações. Era muito constrangedor”, define.
Segundo Ivan, “você se sente a pior pessoa do mundo, fora dos padrões; o que define você é seu caráter e, felizmente, consegui superar”, completa. (Luís Fernando Laranjeira)
Para psicóloga, família e escola devem incentivar respeito às diferenças
Ana Cristina Alves Lima, psicóloga com Mestrado em psicologia escolar, afirma que desde o nascimento adotamos e copiamos modelos de grupos sociais nos quais estamos inseridos, sobretudo na família e, posteriormente, na escola.
Por isso, na opinião dela, “as famílias e escolas devem sempre incentivar o respeito às diferenças; posso não concordar com o que o outro diz, mas devo respeitar sua opinião, e esse respeito será utilizado em várias outras situações e se refletirá como repertório de comportamento; se a criança ou jovem não aprende a ter respeito, como é que ela irá respeitar?”, questiona.
De acordo com Ana Cristina, como no decorrer do desenvolvimento social, temos a necessidade de sentirmo-nos pertencentes a um grupo, vamos identificando características nos outros que promovam a aceitação ou rejeição nos grupos. “Nesse movimento, vamos identificando as características parecidas e diferentes. Na maioria das vezes nos juntamos com pessoas mais parecidas com a gente e ‘excluímos’ as diferentes”, diz.
A psicóloga destaca que o que é diferente causa estranheza e desconforto. Assim, surge uma ‘espécie de dúvida’ do tipo ‘ele é tão diferente de mim, como eu o trato?’, então, “um jeito de lidar com isso é levar para a gozação, ou levar como certo o conceito que tem das coisas, desconsiderando a ideia dos outros”, exemplifica.
“A consequência disso tudo é que quando o outro fica evidenciando demais uma característica que eu não gosto em mim, eu posso acreditar nesse outro e abalar minha autoestima, que, de certa forma, também é formada pelo conceito que os outros têm de mim. Autoestima abalada pode ter consequências na aprendizagem e na formação da personalidade”, conclui. (Luís Fernando Laranjeira)